Quando você não é mais uma testemunha de Jeová

Postado por: Mentalista
Data: 2016-07-03 01:27:34 (Atualizado em: 2017-01-13 00:47:40)

Tags: blog, dissociação, liberdade, família, pressão psicológica

Introdução

Muitos que já foram um dia testemunhas de Jeová fervorosas lidam com um problema diário. Passaram boa parte de suas vidas seguindo as orientações dessa organização, mas agora chegaram à conclusão de que a organização não tem a verdade que alega ter ou que aquela vida não é para eles. Ora, eles mesmos, provavelmente, um dia já pensaram que deixar a organização é um ato de traição, um gesto de ingratidão e rebeldia. Agora, no entanto, passaram a ver que estavam sendo enganados, perdendo seu tempo e daí por diante. Como é que, então, ficam as coisas? Basta dizer que acabou e sair?

O problema

Algumas pessoas que agora são ex-testemunhas de Jeová talvez tenham se desligado bruscamente. Outras foram expulsas e não querem mais voltar. Há, no entanto, um outro subgrupo: aqueles que não querem mais ser testemunhas de Jeová mas que até o momento não conseguiram se desligar por causa da família ou de amigos próximos. A situação é mais ou menos essa: eles passaram a enxergar as coisas de outra maneira, não mais concordam com todos os ensinos das testemunhas de Jeová, estão convencidos de que essa religião não é verdadeira, mas.... continuam como TJ's por causa da doutrina do ostracismo. "Ostracismo" é uma palavra não muito comum, mas que, no contexto religioso, significa ser ignorado/evitado por membros da religião. Ele pode acontecer principalmente por dois motivos: (1) violação das regras internas da religião e (2) desligamento da religião ou apostasia (questionar os dogmas da religião).

Quando uma pessoa é expulsa por cometer algum pecado listado pela religião (adultério, fornicação, roubo, fumo, assassinato, práticas homossexuais), geralmente ela ainda acredita que a religião é correta e que a disciplina no fundo foi adequada e providenciada por Deus. No entanto, os seus companheiros de fé, bem como seus familiares, não podem mais ter contato com essa pessoa, até que ela conclua o processo de readmissão, que deve levar, segundo a literatura TJ, "muitos meses". Essa pessoa então, muitas vezes impulsionada pela pressão emocional para retornar à organização, começa a tomar os passos para reingressar. Por outro lado, aquelas pessoas que não acreditam mais nessa religião como a "única verdadeira" têm duas opções: (1) continuar enquanto puderem suportar, de forma a evitar o ostracismo ou (2) desligar-se prontamente. Este artigo trata do primeiro caso.

Ao ingressar nessa religião, muitas vezes a pessoa não é avisada sobre todas as práticas que resultam em desassociação e também sobre não poder questionar os ensinos da liderança. Isso é algo que agrava a situação, porque essas pessoas geralmente foram fisgadas em momentos difíceis de suas vidas, como por exemplo após a recente morte de um familiar, durante uma fase depressiva ou um momento em que não visualizavam um futuro. Estavam vulneráveis. É também o caso de testemunhas de Jeová que foram nascidas e criadas dentro dessa religião. Quando crianças, geralmente eram motivados pelo medo do tão assustador "Armagedom", pela promessa de um paraíso terrestre, do reencontro com parentes e amigos que morreram e assim por diante.

A hora da decisão

Quando chega o momento em que a pessoa começa a perceber que essa religião é desnecessária em sua vida, começam a surgir algumas questões complicadas: "Devo contar para meus familiares que eu não acredito mais?", "Devo me desligar?", "Devo tentar mostrar a meus familiares que eles estão sendo enganados?", "Será que vou conseguir ser feliz sem o contato com minha família?", "E se eu deixar a religião e isso acabar com meus pais/filhos/parentes?", "E se me expulsarem de casa?", "E se isso acabar com meu casamento?".

É sem dúvida muito difícil estar nessa situação. Para alguns, é uma situação impossível. Um membro das testemunhas de Jeová que continua apenas pela família revela: "Eu simplesmente não sei como consigo continuar nessa prisão. Meus pais e irmãos me pressionam a continuar firme nessa religião. Tenho medo de perder o contato com eles. E de ser uma decepção para meus pais. Eu não tenho dúvidas de que essa religião não é verdadeira. Na verdade, minha relação com Deus agora é em base individual. Tento pegar pontos em comum com meus familiares, mas está cada dia mais insuportável manter segredo sobre minha condição. Se eu contar para eles que não acredito mais nessa religião, eles vão ficar muito zangados e decepcionados. Minha mãe é depressiva e com certeza seu quadro vai piorar. Oro a Deus todos os dias pedindo forças para lidar com tudo isso."

Na hora de pesar os prós e os contras do desligamento, é importante levar em conta vários fatores:

  • Por quais motivos eu quero me desligar?
  • Esses motivos são realmente alcançáveis apenas com meu desligamento?
  • Esta é a melhor hora para me desligar? Estou preparado física e emocionalmente para lidar com as consequências de meu desligamento?
  • Quanto tempo faz que eu estou nessa situação? Será que já não passou muito tempo?
  • É possível que eu fique apenas inativo, de modo que a minha família possa continuar a falar comigo?

Quando a decisão é sair

Quando você não aguenta mais estar nessa situação e decide sair, a dúvida pode ser sobre qual seria a melhor forma de comunicar seus parentes e amigos sobre sua decisão. O primeiro ponto a ter mente é que você simplesmente nem sempre precisa explicar toda a situação para eles. Se você ainda mora com os pais, uma saída mais fácil seria ir morar sozinho. De qualquer forma, você não precisa ser desonesto. Pode lhes explicar que não está com disposição de ir mais nas reuniões e no campo, que tem coisas para cuidar etc. Chegar ao ponto de dizer que você não concorda com os ensinos ou tem uma diferente interpretação bíblica é uma decisão sua.

Uma opção muito usada é sair aos poucos, ou seja, ir diminuindo o passo, reduzindo suas atividades gradualmente até parar totalmente. O primeiro passo é se livrar de designações no salão do reino, diminuir a participação no "serviço de campo" e começar a faltar em algumas reuniões. Vá fazendo isso cada vez mais, até que chegue o momento em que você simplesmente não vai mais. Com certeza você receberá visitas de anciãos que tentarão trazê-lo de volta. Nesse caso, tente falar pouco, evitando que eles produzam "provas" contra você. Para princípio de conversa, eles não têm nem o direito de julgá-lo.

Se você quer mesmo comunicar sua saída aos que lhe são próximos, a melhor opção é falar com cada um individualmente. As pessoas reagem melhor quando não estão na presença de terceiros. Fale com firmeza, porém de forma educada e respeitosa. Mostre que sua decisão é consciente e não foi tomada de um dia para o outro. Conte sobre o sacrifício que você fez de ficar certo tempo ali dentro mesmo sem acreditar e como isso lhe afetou. Demonstre que seu desligamento não é com eles, mas apenas com a religião, e que eles podem continuar a contar com você. Se julgar apropriado, conte sobre como continuar nessa religião atrapalharia seus planos de servir melhor a Deus (caso você ainda seja cristão) ou então como isso seria inútil (caso você não acredite mais no cristianismo).

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