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O gênio maligno

Postado por: Mentalista
Data: 2016-12-25 18:09:41 (Atualizado em: 2017-01-13 00:10:43)

Tags: blog, artigos, filosofia, Descartes, realidade, existência

O artigo abaixo tem o mero objetivo de trazer novos ângulos sobre alguns assuntos. Não é, portanto, típico do blog.

René Descartes (1596 – 1650) foi um filósofo, físico e matemático francês. Ele se destacou principalmente por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria. Por fim, foi também figura-chave na Revolução Científica. Descartes, muitas vezes chamado de "o fundador da filosofia moderna" e o "pai da matemática moderna", é considerado um dos pensadores mais importantes e influentes da História do Pensamento Ocidental. Inspirou contemporâneos e várias gerações de filósofos posteriores; boa parte da filosofia escrita a partir de então foi uma reação às suas obras ou a autores supostamente influenciados por ele. Muitos especialistas afirmam que, começando por Descartes, inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna.

Quando escreveu as suas “Meditações”, em 1641, deparou-se com um problema técnico. Tinha que provar ao leitor a dificuldade que nós temos em confiar nas percepções dos sentidos para conhecer as coisas. A percepção - ou o conhecimento que nos vem dos órgãos dos sentidos (visão, audição, olfato, paladar, tato) - é falha. Quando penso que alguma coisa é real, eu posso estar apenas sonhando, tendo uma visão, posso estar com febre ou mesmo estar mergulhado na loucura.

Continuando seu pensamento, Descartes cogitou que, mesmo tendo alucinações ou sonhando, talvez alguma coisa que percebesse pelos sentidos ainda assim pudesse ser real. Foi aí que ele introduziu na sua obra uma ideia tentadora e interessante: E se existisse um gênio maligno, uma entidade do mal, disposta a enganá-lo todo o tempo?

“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo.”

Interessante, não? Vai lá, leia mais uma vez... e reflita um sobre isso.

Na Primeira Meditação, Descartes primeiro observa que os sentidos algumas vezes enganam. Por exemplo, objetos que estão longes da vista parecem ser bem menores, e certamente não é prudente confiar em alguém ou algo que nos enganou uma vez que seja. Talvez a crença de estar lendo este artigo não é baseada em sensações reais mas em falsas tais como as que ocorrem nos sonhos, alucinações ou na mente de um louco. Se você está sonhando, então não está realmente lendo este livro, mas sim na sua cama, dormindo. Visto que nem sempre conseguimos distinguir sonho da realidade, qualquer crença baseada nos sentidos é duvidosa. Isso se aplicaria até à ciência experimental, porque as observações feitas podem não passar de meras imagens oníricas (de sonhos). Portanto, tudo o que for baseado nos sentidos não pode ser presumido como verdade.

Na realidade, as pessoas algumas vezes cometem erros em assuntos que elas pensam ter certezas, como por exemplo em cálculos matemáticos. Assim, mesmo ideias baseadas na razão poderiam ser ilusórias. Talvez as pessoas estejam erradas ao pensar que, por exemplo, 2 + 3 = 5. Isso poderia ser um tipo de erro persistente e coletivo. Esses enganos não seriam compatíveis com a ideia de um Deus bondoso mas, mesmo assim, muitos enganos ainda acontecem; portanto, para continuar sua abordagem, Descartes supõe que Deus não existe, mas sim um gênio maligno com poderes e astúcia supremos, colocando todos os seus esforços em enganá-lo, de forma que ele sempre estivesse errado sobre qualquer coisa, até mesmo na matemática. É importante perceber que essas dúvidas e a suposta falsidade de todas as suas crenças são por causa de seu método: ele não acredita realmente que está sonhando ou está sendo enganado por um gênio maligno. Ele reconhece que sua dúvida é meramente hiperbólica, sendo portanto propositalmente exagerada.

Como então seria possível provar qualquer coisa por completo? Se esse gênio existisse e tramasse enganá-lo e fazê-lo pensar que o que existe não existe e vice-versa, haveria alguma coisa que ainda assim poderia ser real? Aí entra a descoberta fundamental de Descartes: a capacidade de pensar. Afinal, ainda que duvidasse de tudo, não poderia duvidar de que pode duvidar. Isto é, se ele duvida que pode duvidar, já está provando que pode duvidar. Então, se ele pode duvidar, tem a capacidade de pensar. Ele duvida, logo pensa, logo existe. Com isso Descartes não estava provando a existência de seu corpo ou ainda de seu cérebro ou da realidade. Estava provando que ele existia de tal forma que podia pensar, provando a existência de sua mente.

Ainda que Descartes estivesse redondamente enganado, ainda assim ele seria essa coisa que pensa, essa coisa muito real que imagina, que sonha, que vê e que se engana redondamente. Mesmo que tudo seja falso, a existência de algo que pensa, que duvida, que se engana, é verdadeira. Descartes concluiu assim que aquilo que pensa (o sujeito) é alguma coisa diferente daquilo que é pensado (o objeto). O raciocínio de Descartes, ao mostrar a autonomia do pensamento, permitiu o desenvolvimento de toda a filosofia que lhe sucedeu. A filosofia cartesiana é chamada de racionalismo e essa separação entre sujeito e objeto do pensamento deu origem ao que chamamos de filosofia moderna.

Até aqui fiz uma adaptação de conteúdos já existentes (ver as referências no final da postagem) sobre os pensamentos de Descartes. Agora convido-lhe para fazermos uma reflexão. Você talvez seja cristão, acredite que existe um Criador onipotente, perfeitamente sábio, justo e que é amor. Você não tem dúvidas de que Ele existe. Afinal, você já sentiu a presença Dele em sua vida diversas vezes. Agora pense comigo: se para você é perfeitamente concebível que esse ser espiritual magnífico exista, não seria também concebível que tal gênio acima existisse? Não, eu não estou dizendo que esse gênio do mal existe. Estou propondo a possibilidade de sua existência. Agora, suponha que esse ser existe. Como você poderia saber que não está e nunca esteve sendo enganado por ele? Como você poderia provar isso? Talvez você reaja dizendo: "E quem garante que você, autor, não está sendo enganado por ele e falando essas 'bobagens'?" É uma excelente pergunta, a qual eu realmente não posso responder. Se você puder respondê-la, deixo-a como desafio.

Se quiser ler mais sobre o tema, tenho uma sugestão: as meditações de Descartes. Aqui estão a primeira e a segunda delas: LER.

Referências

  1. René Descartes: Descartes e o gênio maligno
  2. René Descartes
  3. Wikipédia

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